sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Luiz bala de goma


Semana passada assisti ao Patrola, um programa da RBS TV. Em dado momento uma entrevista da Rodaika (apresentadora) me chamou a atenção. Era sobre um vendedor de bala de goma do centro de Porto Alegre. O nome do cara é Luiz, mais ele é mais conhecido pela clientela como Luiz bala de goma. Pois então, o Luiz além de vendedor de bala de goma é agente financeiro de uma empresa no centro da cidade. Pera aí? Eu não troquei a ordem das coisas? Será que o Luiz não é agente financeiro e, também, vende bala de goma? Não. Aí é que tá. O que me chamou a atenção na reportagem foi exatamente isso. O Luiz disse que não vê a hora de sair do trabalho, de terno e gravata, e procurar seus clientes nas filas das paradas de ônibus do centro da capital para faturar com a venda dos doces.

Cara! Olha só isso! Um cara que, para a economia brasileira, engorda os números de empregos formais, vendendo bala de goma na rua. E o pior (pior por quê?), de terno e gravata. O Luiz disse uma coisa durante a entrevista que, para mim, foi o mais importante. Ele disse algo como:

- Que me adianta trabalhar de terno e gravata, ficar parecendo uma coisa que não sou, e viver duro? Um dia vi uns garotos vendendo balas nas ruas e me perguntei? Quanto será que eles ganham? Fui atrás e vi que o lucro era de 100%. A partir daí comecei a vender balas de goma também. A diferença é que não sou criança e trabalho de terno e gravata.

O pessoal no começo estranhou. Um cara de terno vendendo bala de goma? Só pode ser piada. Mas depois os clientes foram entrando na onda do Luiz e já não estranham mais aquele negrão de mais de 1,90m, todo bem vestido, segurando caixas de balas num braço e acenando com a mão, oferecendo seus doces para o pessoal. Dois pacotinhos de bala, só 1 real.

Não bastasse essa esquisitice, o Luiz já foi candidato a vereador em Porto Alegre (fez pouco mais de 190 votos), e o melhor, e aí vem a parte mais legal do negócio. O Luiz filma suas vendas e conversas com os clientes, com seu celular, e depois joga no You Tube. É só procurar lá. Coloca assim: Bala de goma em Porto Alegre. Tem dezenas de vídeos engraçados do Luiz e seus clientes.

Aonde eu quero chegar com toda essa história? Pois bem, o Luiz é um cidadão que a partir da semana passada tem minha admiração. Por quê? Porque ele não tem vergonha de trabalhar. Não esconde sua verdadeira condição financeira pelo fato de trajar um terno. Ou seja, o Luiz não falseia, não mente, pelo menos nisso. Uma vez, Everton Cunha, o Mr. Pi, locutor da rádio Atlântida FM, disse isso:

- 99,9% das vezes nós somos hipócritas. As outras 0,01% é quando dizemos que somos hipócritas.

O Luiz, talvez, seja menos hipócrita que o restante de nós. Porque ele não tem vergonha de correr atrás de sua sobrevivência. Ele enxerga oportunidades de crescimento em atividades que, para muitos de terno e gravata, são trabalhos menores. Não servem para suas mentes privilegiadas. O Luiz não, o Luiz agarra a oportunidade e trabalha com ela. E daí que os amigos riam dele? O importante é tentar melhorar de vida. Ganhar dinheiro para realizar seus objetivos. Garanto-lhes que, vendendo bala de goma e sendo agente financeiro, o Luiz está melhor de vida que muito colarinho branco por aí. Quem de nós já não recusou trabalho por achar que era menor que nosso próprio ego? Quem de nós já não se favoreceu em algum momento da vida? Quem já não se usou de conhecidos para arrumar um bom emprego? Quem já não furou fila? Quem já não vendeu um carro e escondeu os problemas que ele tinha? Alguns irão dizer que o mundo de hoje é que nos força ser espertos. Querer levar vantagem. Porque senão somos atropelados pelos outros. Pode até ser. Mas o que nos torna diferentes, então de ladrões, assassinos, seqüestradores, traficantes e todo o resto?

Talvez um simples vendedor de bala de gomas tenha a resposta. Pelo menos ele é um pouco menos hipócrita que o restante de nós.

3 comentários:

Mary do Rap disse...

Por:Mary do Rap
* Porto Alegre (RS)


Feche os olhos e respire fundo vou te apresentar mais um figurante do centro da minha city...



Sem nenhuma linguagem cerimonial, mas com muita cancha e simpatia chega ele.
LUIZ VENDEDOR DE BALA DE GOMA DE PORTO ALEGRE.
Quase nunca é rejeitado, pois coloca o coração na boca e fala intimamente com todos que estão nos terminais de ônibus.
Vende pra quase todo mundo, e é amigo da criançada.
Este acontecimento, nas grandes cidades é muito comum.
O Luiz, não é nenhuma peça rara e muito diferente, mas são estes trabalhadores autônomos, anônimos e invisíveis que fazem a diferença e que fazem tudo ficar surpreendente.
Eles não se entregam nem se aquietam diante do desemprego eles vão a luta, usando armas como a criatividade, que é o caso do vendedor de balas de goma.
Eles não perdem tempo com o sofrimento, nem com as más condições que por vezes enfrentam pra viver.
Não deixam que o medo, a ansiedade e nem a preocupação os leve para um caminho errado.
Este tipo de trabalho é valoroso, pois esta é uma imagem que pode ser um dos melhores métodos para aumentar nossa fé e confiança em nós mesmo.
Parabéns Luiz por este lugar que tu conquistou.
Lembrem que a sabedoria está também no empenho e no entusiasmo e no sentido que damos para nossa vida e deste sentido muitas vezes tiramos a fórmula ideal para viver.
Mary do Rap.

Luciano S. Santos disse...

concordo com vc. sem tirar nem por.

Anônimo disse...

Ótimo exemplo a ser seguido. Esta atitude, esta visão de vida e de honra é para poucos.Pena que os trabalhos mais simples sejam encarados como humilhantes neste país.Um trabalho bem feito, com honestidade e alegria, que é a marca registrada do Luiz, é digno de admiração e aplausos. Parabéns